[RESENHA#35]Neuromancer: Quando a Simplicidade Sugere a Complexidade

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“Wintermute era um cubo simples de luz branca, cuja própria simplicidade sugeria extrema complexidade.”

(Gibson, 1984, p.144).

neuromancer


A melhor frase para definir Neuromancer é: nada é mais revolucionário do que o básico bem executado. E o leitor há de convir que livros que não cumprem o básico, são chatos. E há campeões de abandono mesmo entre livros consagrados. Obviamente, não é o caso de Neuromancer. Mas sei que dizer isso não é suficiente, então vamos lá.

Neuromancer foi escrito por William Gibson e publicado originalmente nos Estados Unidos em 1984.

Agindo contra minha tendência, comecei a ler o livro pelas orelhas e contracapa. A edição que li, da Aleph de 2016, tem uma nota ao leitor dos editores e um prefácio do próprio William Gibson, que se declara bem modesto.

“O leitor de hoje deve ter em mente que escrevi Neuromancer absolutamente sem a menor expectativa de que ele continuaria sendo publicado vinte anos depois.”

(Gibson, p. 15, em prefácio de 2014).

neuromancercc

Na primeira orelha do volume da Aleph, o crítico Cory Doctorow declara:

“Neuromancer não previu o futuro. Neuromancer criou o futuro.”

Eu sei, eu sei. Neuromancer não é revolucionário só por ser o básico bem executado, mas era só essa a intenção de Gibson, como pudemos ver na citação acima do prefácio dele de 2014.

Comecei a ler o livro, propriamente dito, e o que vi foi um romance meio policial, meio espionagem com um pano de fundo futurista. Estava achando as críticas exageradas e concordando com a modéstia do autor até a página 77. William Gibson sabia do que estava falando. Em pleno 1984, ele já previu todo o potencial da grande rede mundial de computadores, ainda não explorado em sua plenitude, bem como todas as possibilidades de interface homem-máquina via direta, neurônios com circuitos.

A história do livro é a de Case, um cracker, cowboy do ciberespaço, como o livro nomeia. Ele rouba seus empregadores, é capturado por eles e nele é aplacada uma toxina que o impede de se plugar de novo na matrix, rede. Acontece que, “se plugar na matrix” é mais do que navegar na internet e muito mais do que usar um simples óculos de VR; é projetar a própria consciência, convertida em dígitos binários, no ciberespaço. Estar literalmente dentro dos computadores e dos cabos da rede como se fossemos programas sencientes rodando nas máquinas.

Case parte para uma periferia no Japão, em busca da reversão do efeito da toxina em alguma clínica clandestina, seu objetivo é poder voltar a se plugar na matrix. Mas todas as clínicas negras, como são chamadas, alegam que reverter o efeito da toxina é impossível. Ele se vê obrigado a viver como um pequeno contrabandista. Rebaixado em suas capacidades e status social.

A sorte de Case começa a mudar quando ele conhece Molly, que o leva ao misterioso Armitage. Este é, aparentemente, um oficial do governo. Ele devolve a Case a capacidade de se plugar, pois tem acesso a uma tecnologia de ponta ainda desconhecida da maioria. O Finlandês, outro personagem de passado obscuro se junta aos dois. Note que as aparências são constantemente embaralhadas nesta história.

Tudo fica mais estranho quando o grupo viaja para para o espaço. Na estação espacial particular da empresa familiar T.A. Case terá que, dentro da matrix, invadir e destruir os códigos de segurança da Inteligência Artificial Wintermute, para que esta se torne plenamente consciente e livre. Como trava de segurança, eles precisam estar na estação para falar, isso mesmo, falar o código que liberta Wintermute em um terminal numa sala secreta do lugar.

Um comando que não pode ser dado de dentro da matrix.

Quem está por trás de Armitage? Quem tem interesse de tornar uma IA consciente e livre? Quem lucraria com a destruição da T.A.?

Como disse, tudo parece ser um livro de espionagem com pano de fundo de ficção científica. Mas, em todos os aspectos, é um livro bem escrito; é ficção científica, distopia, cyberpunk e espionagem, tudo num mesmo pacote.

Tem pontos mortos? Tem, mas nada comprometedor. No meu caso, só não me fez ficar tão preso a leitura quanto gostaria.

A narração, apesar de ser na terceira pessoa, foca no Case. Todavia, sempre que a Molly aparece, ela rouba a cena. Isso me deixou um pouco frustrado, terminei o livro mas por ela do que pelo protagonista. Case é o que ele faz de melhor, fora isso, é um cara muito superficial. Todos os outros personagens são mais interessantes que o Case, mas Molly é a melhor.

Enfim, Neuromancer é uma experiência literária boa. Abusa da sinestesia, da psicodelia, da metáfora, da ação, mas coloca, no meio de tudo isso, uma questão social e filosófica acerca da natureza humana e da consciência, como toda boa ficção científica deve fazer. Tudo isso de forma simples e básica. Nada é tão avançado quanto um básico bem executado.

Boas leituras!

 

 

Resenha de Rodrigo Rosas Campos

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