[Resenha#76] O Salmão da Dúvida

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SalmaoDuvida
    Douglas Adams é o autor da famosa e perfeita trilogia de 5, O Guia do Mochileiro das Galáxias. Quando ele morreu, seus arquivos de computador foram vasculhados e remexidos a fim de produzir um livro tributo, O Salmão da Dúvida. Mas antes de continuar, devo agradecer a banda Procol Harum por ter escrito e tocado a música Grand Hotel, que inspirou Adams a escrever O Restaurante no Fim do Universo, o melhor volume/cenário da melhor saga de todos os tempos, o Guia do Mochileiro das Galáxias. Muito obrigado a vocês.

    Os detalhes da gênesis de O Salmão da Dúvida estão no próprio livro, leiam, é ótimo mesmo! Mas resumindo, quando Douglas Adams deixou a Terra, em 2001, muito do que estava nos HDs de seus computadores, Macs (ele era chique) foi vasculhado. Além de passagens autobiográficas, palestras, entrevistas e de artigos que ele já havia publicado em periódicos, o livro traz capítulos do livro que ele não terminou, o Salmão da Dúvida que dá título ao volume; uma entrevista e um ensaio filosófico polêmicos sobre Deus; comentários sobre tecnologia e ecologia; e um conto de Zaphod Beeblebrox, o amalucado alienígena de duas cabeças do Guia, antes dele virar o presidente da galáxia.

    A leitura é lenta, mas é aquele lento bom, como se a cada dia você tivesse batendo um papo com o autor num bar em uma determinada hora marcada. Parece que Adams fala com você e o entusiasmo dele para todos os assuntos abordados é contagiante. Mesmo quando eu detesto o assunto em pauta, como ecologia (me julguem), sou motivado a ouvir o que aquele inglês maluco, genial e brilhante tem a dizer. Nenhum assunto é sério demais que não possa ficar alegre e divertido, pelo contrário, o bom humor é a melhor forma de conscientização que a sisudez e o tom autoritário dos panfletários ativistas pedantes do mundo. Ele sabia que não faria a cabeça de todos, mas todos querem ouvir o que ele teve a dizer. Isso já é muito!

    Neste e nos outros livros de Adams publicados no Brasil há a falta de um sumário (ou índice) decente. Ou seja, mesmo sendo um livro de vários textos que não precisam ser lidos na sequência certa, nossos “amados” editores nos obrigam a ler na sequência certa. Um absurdo? Com certeza! Mas coloco as indicações das páginas de meus textos preferidos.

    – Viagem no Tempo, página 137.
    – Biscoitos, página 166.
    – Carta de Adams a David Vogel da Walt Disney Pictures, página 182, aonde Adams mostra insatisfação com o andamento do filme baseado no Guia do Mochileiro das Galáxias.
    – Perfeitamente Seguro, um conto de Zaphod Beeblebrox, página184. A razão que me levou a querer ler esse livro, obrigado ao meu primo André Felipe por ter me emprestado. Mais uma vez, obrigado aos nossos “amados” editores nacionais por não terem providenciado um índice (ou sumário) decente. Perfeitamente Seguro foi publicado originalmente no The Utterly Utterly Merry Comic Relief Christmas Book em 1986. Se você se acha fã de Harry Potter e não sabe o que é o Comic Relief, sinta vergonha (muita vergonha mesmo) e vá ler (não ver filminho, é ler de verdade) Animais Fantásticos e Onde Habitam.
    – Trecho de uma entrevista conduzida por Matt Newsome, página 199.
    – Fax para Sue Freestone, página 200.
    – O Salmão da Dúvida, páginas 201 até 275. É curto mesmo! Curto e inacabado. Inacabado mesmo. Como dito em páginas anteriores, são só os rascunhos dos primeiros capítulos. Estes são o que havia dos capítulos do que seria o terceiro livro do Gently. Mas mesmo nesse improviso, a escrita é interessante e engraçada. Mas, nesse caso, só vemos a cabeça do gato. Não entendeu? Leia o livro! Triste é saber que nunca saberemos o destino daquele meio gato entre outras perguntas que Adams não respondeu.
    – Entrevista Para o Daily Nexus, página 275. Ultimo texto do Adams do livro.
    – Epílogo, página 280. Aqui são outras pessoas que voltam a falar acerca de Adams e não mais, ele mesmo. Vai assim até o final do volume.

    A edição nacional também é alvo de crítica pela contracapa. O livro é, na maior parte (bem mais da metade), uma compilação de pensamentos do autor, de momentos autobiográficos e de suas opiniões acerva da vida (sobretudo a vida selvagem marinha), do universo (literalmente, o espaço, a fronteira final etc.) e tudo o mais (tecnologia principalmente, a republicação de um conto e o livro inacabado); ou seja, só os fãs mais fervorosos (nerds de verdade que são leitores de verdade acima de tudo) vão se interessar. A ênfase do texto da contracapa são os capítulos de O Salmão da Dúvida, que teria sido o terceiro livro do detetive Dirk Gently. Ou seja, isso só vai interessar a fãs que realmente gostem de ver os bastidores.

    Agora um aviso: isso NÃO É SPOILER! É o modo como eu completo a história, meu fã fic interno. Como diria Daniel HDR (desenhista e mestre multiversal), a minha cronologia pessoal. Pena que Adams não quis integrar Gently ao universo/multiverso do Guia do Mochileiro das Galáxias, ao menos, não oficialmente. Mas como um livro inacabado deixa lacunas, na minha cronologia pessoal, o modo como eu completo essa história faz com que Gently não só esteja no mesmo multiverso do Guia, como também foi ele quem, em seu jeito amalucado, com muita sorte mesmo e sem querer querendo, salvou a sua Terra da nave Wogon.

    Pela falta de um índice decente, aconselho a leitura com 3 marcadores, um que marque a leitura retilínea, normal, melhor começar pelo início. Um que indique um título de texto que você achou interessante e que, por isso, pulará para ler, e um terceiro para marcar aonde você está nesse texto que você está lendo, mas que está pulando, fora da ordem retilínea.

    A referência bibliográfica do livro é:

    ADAMS, Douglas.  O Salmão da Dúvida.  São Paulo: Arqueiro, 2014.

    E antes de ir, uma palhinha do livro, uma breve citação:

    “As coisas que não funcionam chamam nossa atenção. As que funcionam, nem tanto. Computadores chamam nossa atenção, mas não ligamos para moedas. E-books chamam nossa atenção; já livros, nem damos bola para eles.” (Adams, p. 128, 2014).

    Agora, uma coisa me intriga. Apesar deles terem usados os HDs de Adams, mais de noventa por cento do conteúdo já havia sido publicado antes (não no Brasil, claro, mas já havia sido publicado antes). Seria mais fácil separar só o material realmente inédito e depois pensar nas obras completas do autor. Mas o livro é ótimo e me deixou curioso para ler Last Chance to See.

    A propósito, Douglas Adams, onde quer que você esteja (ou não esteja), sim, você é conhecido como o autor de O Guia do Mochileiro das Galáxias. Isso não é pouco e não se preocupe, muitos serão defensores do meio ambiente depois de lerem essa série.

    A vocês, leitores, obrigado pelos peixes, digo, por lerem estas linhas e boas leituras!

    Rodrigo Rosas Campos

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2 comentários em “[Resenha#76] O Salmão da Dúvida

    Clayci disse:
    13 de abril de 2017 às 15:55

    Eu amo o Douglas Adams. É aquele tipo de pessoa que a gente quer ser amigo, sabe? hahahaha
    O guia do mochileiro das galáxias é maravilhoso e todos deveriam ler *_*

    Curtido por 1 pessoa

      rodrigorosascampos respondido:
      14 de abril de 2017 às 19:33

      Você vai gostar desse. É ele falando sobre tudo.

      Curtir

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