[ENSAIO] Pelo Retrovisor

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retrovisor

 

É engraçado perceber como as coisas mudaram, desde o dia em que desci do seu carro. Não foi uma descida bruta, como imaginei que seria. Ao invés disso, foi leve e despercebida.

Aproveitei uma das suas paradas e, por vontade própria desci. Lembrei apenas de pegar rapidamente minha mala grande que estava em meu colo, mas esqueci da frasqueira em seu porta-malas.

 Foi simples assim. Em meus 20 segundos de loucura e coragem, abri a porta e desci. Você não estava lá para ver minha partida. Quando comecei a caminhada, sequer olhei para trás. Estive na estrada caminhando sozinha. Andei pelo acostamento por alguns quilômetros, pensando na melhor rota a seguir. Meu celular tocou em meio aos devaneios e não mais me senti só. Eram algumas pessoas que também estavam em seu carro durante aquele percurso e notaram minha partida. Elas também estavam no banco de trás do seu carro e, assim como eu, tomaram coragem de descer em alguma de suas paradas.

Alguns pingos começaram a cair em meu rosto. Foi assim que notei como não tinha mais medo da chuva, medo de me molhar. Eu estava ali, simplesmente de braços abertos, agradecendo pela vertigem ter passado. Sou claustrofóbica. Não gosto de lugares cheios de gente e apertados. Um de nossos amigos, que havia descido um pouco antes de mim, conseguiu me alcançar. Ele também estava tão feliz quanto eu de termos conseguido descer a tempo de nos molhar na tempestade. Não temo mais a chuva. Caminhamos então um pouco juntos, até perceber que nosso destino é ter cada um o próprio carro. Ele já tinha o dele, porque havia descido antes. Decidimos então, nos encontrar sempre que a saudade apertasse. Tínhamos caminhos diferentes a traçar, mas ficaríamos sempre por perto.

Demorei um pouco para chegar aqui, mas agora estou sentada no banco do motorista. Este é meu carro. O caminho que escolhi, nem sempre tem sol e quando o vento sopra, lembro-me com carinho de quando estava de carona com você. As melodias que tocam em meu rádio não são as mesmas daquela época. Meu carro é pequeno e trago de carona agora, pessoas que me são muito caras. Para que elas não tenham o mesmo problema que eu tive (a famosa vertigem), faço um revezamento entre elas para sentarem ao meu lado, no banco da frente. Acho justo ter momentos especiais com cada uma delas. E nosso amigo?! Bom, sempre nos encontramos em algum lugar para matar a saudade, como combinado.

Confesso que me pergunto: por onde você andará?! Não vi seus rastros na avenida que acabei de entrar. Talvez você esteja mais longe do que imagino. Guardo em mim, a esperança de ter te visto pelo retrovisor em um dos caminhos mais iluminados. Teria você achado e guardado minha frasqueira? Essas dúvidas, não desaparecerão até te encontrar e, minha única certeza agora é a de que sempre tenho de seguir em frente…

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16 comentários em “[ENSAIO] Pelo Retrovisor

    Joanice Oliveira disse:
    12 de janeiro de 2017 às 17:37

    Olá,

    Que conto suave e super gostoso.
    Gostei bastante da melancolia e simbolismo que as lembranças trazem quando nos batem em cheio nos momentos que nos encontramos com o passado e traz à tona todos os sentimentos guardados e sonhos interrompidos.

    Beijos!

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    Silvânia Alves disse:
    12 de janeiro de 2017 às 18:59

    Ótimo texto, de uma suavidade e ao mesmo tempo de uma sensibilidade incomparáveis, tocante, nos remete a lembranças que são de todos, quem nunca partiu sem olhar para trás?
    Sem olhar no retrovisor…se perguntando onde a pessoa estaria…
    Parabéns.
    Não sei se já é escritora, mas pode pensar na possibilidade de escrever um livro…

    Curtido por 1 pessoa

    Suzane Cruz disse:
    12 de janeiro de 2017 às 22:02

    Caramba, que texto profundo e ao mesmo tempo singelo, gostei muito de como colocou um mar de sentimentos nele, pode ser interpretado de várias formas e o leitor se identifica com a história escondida nele. Parabéns!

    http://www.memoriasdeumaleitora.com.br

    Curtido por 1 pessoa

    Rosana Gutierrez disse:
    12 de janeiro de 2017 às 23:54

    Olá.
    Adorei o texto. Bem escrito e cativante.
    Bjs
    Rosana

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      Gaby Cunha respondido:
      13 de janeiro de 2017 às 21:04

      Muito obrigada!

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    World Of Make Believe disse:
    13 de janeiro de 2017 às 17:45

    Oi Gaby! 😀 Adorei seu texto e as reflexões que ele me trouxe, espero ver outros textos teus e que eles sejam tão deliciosos de ler quanto esse!

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    Carla disse:
    13 de janeiro de 2017 às 21:17

    Oie!
    Nossa, que texto ótimo!
    Adorei suas palavras, assim como todo o momento de reflexão que isso proporcionou. Parabéns por essa iniciativa!
    Bjks!
    Histórias sem Fim

    Curtido por 1 pessoa

    Beta Oliveira disse:
    15 de janeiro de 2017 às 19:49

    Olá! Que texto forte, consegue condensar tantos sentimentos nas imagens descritas. Você consegue imaginar, se identificar e até se lembrar de momentos na própria vida. Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

    Greice Negrini disse:
    16 de janeiro de 2017 às 13:59

    Nossa, que coisa mais linda. Nunca imaginaria escrever um conto assim desta forma. Legal pensar como a metáfora de descer do carro leva tantas emoções. Parabéns.

    Beijos,

    Greice Negrini

    Blogando Livros
    http://www.blogandolivros.com

    Curtido por 1 pessoa

    Brenna Damaceno disse:
    17 de janeiro de 2017 às 22:14

    Oi, tudo bem?

    Nossa, adorei o seu texto. Você fez uma bela comparação do tempo, do crescimento e das mudanças que sofremos quando buscamos essa independência. Adorei o conto, acho que é uma ótima reflexão haha

    https://mysecretworldbells.blogspot.com.br/

    Curtido por 1 pessoa

    caroolkilljoy disse:
    17 de janeiro de 2017 às 22:37

    Olá, tudo bem? Adorei o texto. Leve, fluido, sua história se conta sozinha. Amei mesmo!
    Beijos,
    diariasleituras.blogspot.com

    Curtido por 1 pessoa

    Gabriela de Souza Cerqueira disse:
    18 de janeiro de 2017 às 23:47

    Que texto lindo xará
    De uma profundidade e delicadeza incrivel, adoro quando eu leio algo e me identifico, lembro de algum momento da minha vida, vejo que alguem tambem sentiu aquilo, continue escrevendo, pois você tem o talento de atraves da sua escrita nos transportar muito bem para a cena que você esta retratando,, leitura é imagem e eu adorei as que o seu texto me proporcionou, bjs

    Curtido por 1 pessoa

    Thayenne disse:
    19 de janeiro de 2017 às 22:03

    Olá,

    Achei seu texto bem reflexivo, pode-se tirar uma boa lição disso aí, às vezes é bom pensarmos em nós mesmos.
    Gostei da sua forma de escrever, é uma escrita leve e fluída.

    Beijos,
    entreoculoselivros.blogspot.com

    Curtido por 1 pessoa

    Brenda Soares disse:
    30 de janeiro de 2017 às 11:09

    Nossa… que legal… tens muito talento. Criaste uma “suavidade profunda” interessante, com um toque melancólico. Ficou muito bom ^^ Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

    Lorrane Fortunato disse:
    31 de janeiro de 2017 às 16:41

    Olá, tudo bem?

    Achei seu texto lindo e inspirador! Sua forma de escrever é bem leve e transmite uma sensação tão boa!

    Amei! Já quero ler os próximos!

    http://www.dreamsandbooks.com

    Curtido por 1 pessoa

    Kennedy Menezes disse:
    10 de março de 2017 às 19:23

    Gostei muito do texto, adorei a comparação da história desde o inicio do outro conto. Muito bom !

    Curtido por 1 pessoa

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