[RESENHA#32]Duna de Frank Herbert: a Obra Ficção Científica Que Exemplifica as Ciências Políticas

Postado em Atualizado em

duna_frente_alta

Antes de mais nada, sei que Duna é uma série, mas aqui, escrevo apenas sobre o primeiro livro. A edição lida aqui é a da Aleph de 2010, quinta reimpressão.


Escrito por Frank Herbert e publicado originalmente em 1965 nos EUA, Duna é um quebra-cabeça que se monta enquanto se avança na leitura. Como uma boa obra de ficção científica que é, Duna mostra um cenário que remetia a realidade de sua época e que hoje se mostra assustadoramente atual. Herbert, já em 1965, apontou para as questões geopolíticas do oriente médio, escassez de água, desenvolvimento sustentável, imperialismo, tudo isso sob a metáfora de um futuro aonde a colonização espacial já estava consolidada e era a hora dos poderosos lutarem pelo domínio dos planetas.

No início do livro, o leitor se vê as voltas com a ida da família Atraids ao planeta desértico Arrakis, também conhecido como Duna. Paul Atraides está prestes a passar por um doloroso rito de passagem depois de uma infância de treinamentos e estudos diários, afinal, ele será o Duque Atraides no lugar de seu pai, Leto.

Aqui se inicia uma série fantástica de diálogos que dão ao leitor a noção do que está acontecendo. A família Atraides sabe que a ida para Duna é uma armadilha do Imperador e dos Harkonnen, mas também é a oportunidade de controlar a coleta e o refinamento da especiária que dá aos humanos a capacidade de calcular as dobras espaciais sem o auxílio de computadores. Sim, uma droga que potencializa as capacidades de cálculos e a previsão de probabilidades. Não, isso não é um spoiler, como o leitor que for até o fim do livro perceberá.

A ideia de que drogas psicotrópicas poderiam expandir a percepção humana é uma constante nessa obra de 1965 e é bem exagerada para dar sentido a trama; mas isso era uma crença comum à época. Em suma, a psicodelia está presente.

Chegando em Arrakis, os Atreids são traídos, o Duque Leto é morto, Paul e Jéssica são dados como mortos, mas se refugiam entre os fremen, tribos de humanos que vivem no deserto além da muralha escudo, longe do poder do Imperador Espacial e de seus enviados. É esse povo nômade que dará suporte para Jéssica e Paul recuperem seus lugares de direito, planejando a retomada de Duna dos Harkonnen e do império.

Mas os fremen querem mais, querem transformar o deserto do planeta em selvas e florestas, e já haviam iniciado o processo de terraformação. Todavia, nada é tão simples como parece, pois isso limitará a produção da preciosa especiaria.

Planos dentro de planos, dentro de planos. Duna nos apresenta, em forma de ficção, noções de economia, sociologia, antropologia, história, filosofia, política, relações exteriores, direito, teologia, enfim, o básico que todos os cursos superiores ensinam, ou deveriam ensinar, numa linguagem que todos estão aptos a entender. Nesse aspecto, é um livro brilhante.

Apesar de ser o primeiro de uma série, a história do livro é bem fechada nela mesma.

De fato, o final promete eventos futuros, mas a história é bem autocontida, dando ao leitor a opção de continuar ou não.

As influências de Duna na cultura pop são gritantes: o conhecido xadrez vulcano de Jornada nas Estrelas é o Queóps de Duna; a tecnomagia, mistura de magia com tecnologia, de desenhos como Thunder Cats; Thundar and The Barbarians; He-Man and The Masters of the Universe entre outros. Também notamos o esforço feito por Herbert de colocar o leitor ambientado naque cenário, coisa típica de ambientações de RPG; se O Senhor dos Anéis determinou o tema dominante desse tipo de jogo, foi Duna que ensinou como levar o leitor a uma imersão suficiente para daí se colocar em um papel novo dentro da história, de fato o leitor se sente parte daquela história, é por essa razão que a maioria dos leitores busca os demais livros da série; eles se importam com o destino de Paul como se fossem um amigo dele, não um leitor distante.

Apesar de certas coisas ficarem bem claras: todos os humanos daquele futuro são descendentes de terráqueos, nossos descendentes, outras não são elucidadas nem mesmo nos apêndices. O autor não diz, por exemplo, o que aconteceu ao nosso planeta Terra, ou os detalhes de como a sociedade humana regrediu a um sistema político monárquico, feudal e mercantil, com doses maiores ou menores de teocracia dependendo do planeta colonizado específico.

Os diálogos são o ponto alto do livro, tão bons que remetem as peças de Shakespeare, ou as tragédias gregas. Entretanto prepare-se para alguns pontos mortos dispersos nas 543 páginas. Alguns detalhes atrasam a história, são bem irrelevantes mesmo, mas funcionam para alguns leitores.

Duna é diversão inteligente garantida, o leitor se enriquecerá ao ler este livro. É um bom livro, eu mesmo desejo ler outros livros de Frank Herbert fora dessa série. Boa leitura então!

 

 

Resenha de Rodrigo Rosas Campos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s