[ENSAIO]Multiverso Domínio Público:Ensaio Sobre os Super-Heróis Que Caíram Em Domínio Público

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Introdução

Sim, super-heróis também caíram em domínio público, e eles são realmente muitos nos EUA. Listas bem abrangentes podem ser vistas nos sites Wikia – Public Domain Super Heroes, Comic Vine e até na Wikipédia.

Muitas histórias em quadrinhos nessa situação estão disponíveis online (em inglês) nos sites Comic Book Plus (+) e The Digital Comics Museum. É de surpreender a quantidade imensa de material.

Se você está pensando que, “estes personagens são tão de segunda que ninguém quis renovar os direitos” como aconteceu com os grandes das atuais DC e Marvel, prepare-se para surpresas.

Este ensaio é, justamente, sobre o multiverso baseado em domínio público. Estes personagens possuem força popular suficiente para ainda serem publicados. Muitas editoras estadunidenses iniciaram linhas com os super-heróis que caíram em domínio público, criando um verdadeiro multiverso do domínio público, duplicando e espalhando os personagens por vários universos fictícios.


Este ensaio é sobre personagens como: o Daredevil original de 1940; Captain Flag de 1941; The Owl de 1940; Miss Masque de 1941; Captain Future de 1940; Atomic Man de 1941; Amazing Man de 1939; The Clock de 1936; The Arrow de 1938; Green Lama de 1940; Airman de 1940; Sub-Zero de 1940; Pyroman de 1942; Pat Patriot de 1941; Captain Freedom de 1941; American Eagle de 1942; V-Man de 1942; Marvelo de 1940; Raven de 1940; Black Venus de 1944; The Hood de 1941; Black Cat de 1941; Moon Girl de 1947; Star de 1949; Lady Satan de 1941; Lash Lightning de 1940; Lightning Girl de 1942; Woman in Red de 1940; Yankee Girl de 1945; Yankee Girl de 1947; Amazona the Mighty Woman de 1940; entre tantos outros. Mostrando um resumo geral do que aconteceu com eles.



Mas como tantos personagens bons foram criados e esquecidos?
 

StarlightCom a criação e publicação do Superman em 1938 na revista Action Comics #01 pela National Periodics – que viria a se tornar a atual DC comics -, várias editoras entraram de cabeça no novo gênero, o de super-heróis. Muitas delas já possuíam vigilantes e magos.
O diferencial do Superman para com os aventureiros fantasiados anteriores era o fato de que ele não dependia nem de magia nem de equipamentos ou armas para atuar. De fato, foi o primeiro super-herói da história.

O sucesso dos super-heróis durou até o fim da Segunda Grande Guerra. Estava terminada a chamada Era de Ouro dos Quadrinhos. Vale lembrar que o termo Era de Ouro não se refere só aos quadrinhos de super-heróis e aventureiros, mas aos quadrinhos norte-americanos como um todo. Personagens emblemáticos, como o Ferdinando, são dessa época.

Outro ponto a ser lembrando é que os melhores quadrinhos da época eram distribuídos em tiras de jornais pelo mundo todo. Os autores desse material sim, possuíam prestígio, dinheiro, os direitos de suas criações, e renome. Isso tudo é bem lembrado e contado por Daniel HDR no Arg Cast sobre os Defensores da Terra.

As primeiras revistas de quadrinhos (comic books) não passavam de compilações dessas tiras. Action Comics, se não foi a primeira, foi uma das primeiras revistas a apresentar material inédito e exclusivo.

Inicialmente, o próprio Superman era de Siegel e Shuster, mas logo os editores começaram a encomendar personagens e séries mediante pagamento e cessão de direitos autorais. Os próprios criadores do homem de aço venderam os direitos do personagem para a então National Periodics. As famílias dos criadores do Superman brigam até hoje por uma parte maior nos lucros do personagem, mas o fato é que, nos EUA, é permitida a venda de direitos autorais e Siegel e Shuster os venderam.

ExcitingComicsMissMasqueO pós-guerra trouxe aos EUA a paranoia do “perigo” comunista, o Macartismo e a censura nos quadrinhos, sobretudo os de terror e super-heróis. Os alvos preferencias do livro A Sedução do Inocente foram os quadrinhos de terror e a dupla Batman e Robin, acusada de homossexualismo.

Veio então o Comics Code Authorit, uma autocensura da indústria para evitar uma censura maior. O fato é que grande parte das editoras de quadrinhos nos EUA, ou fecharam ou mudaram de ramo ou quebraram. Este código de ética começou a valer em 1954 e só terminou, oficialmente, em 2011.

Maiores detalhes sobre esse período no blog Quadrinhopop aqui em uma matéria de Mark Almeida; e no pod cast do Universo HQ, Confins do Universo #02 aqui.

Em resumo, toda essa paranoia, censura e perseguição ao terror e aos super-heróis acabaram falindo a maior parte das editoras da época. Deixando espaço apenas para as que tinham títulos campeões de vendas e que se tronariam as atuais DC comics (que comprou várias editoras menores) e Marvel Comics.

Outro detalhe importante a ser lembrado é que a maior parte dos artistas que trabalhavam para as editoras de comic books (revistas em quadrinhos) era de freelancers e trabalhava por pagamento, prestação de serviço, “work for hire”, cedendo os direitos de suas criações para os editores, pessoas jurídicas, empresas. Isso era parte do contrato de trabalho. O leitor mais atento verá que, muitos dos criadores que serão mencionados nesse texto morreram recentemente, mas quando esses personagens foram produzidos, já o foram com a condição de que eles não seriam os donos dos direitos das próprias criações.

Mas deixemos de lado este período obscuro e vamos ao que interessa aqui.

O Multiverso dos Super-Heróis do Domínio Público


Arrow1Como já foi dito, muitos desses personagens não foram tão esquecidos quanto poderia se pensar. Depois da queda no domínio público chegaram a ser relançados em algumas editoras com o passar dos anos. Vajamos alguns dos títulos mais conhecidos:

Next Issue Project da editora Image: a Image, sobretudo o autor e desenhista Erik Larsen no título de sua autoria, o Savage Dragon, usou os personagens de domínio público para ter uma era de ouro em seu universo unificado da época.

Acontece, que a editora surgiu no início dos anos 1990 e Larsen quis que a realidade do Dragon fosse como a das empresas concorrentes, DC e Marvel, que tinham heróis de três gerações.

Foi na história do Dragon que o Daredevil original ressurgiu; aqui no Brasil, pararam de publicar a revista do Dragon antes dessa fase. O passo seguinte foi dar um título para estes personagens serem reapresentados de uma melhor forma para um novo público, o Next Issue e seus desdobramentos.

Lembrando que antes da Image se tornar uma editora realmente independente, o projeto inicial era que ela rivalizasse com a DC e com a Marvel, com a única diferença de que seus criadores e sócios manteriam os direitos totais sobre os trabalhos. Ou seja, ela surge como um universo unificado de super-heróis visando lucro com merchandising.

As desavenças entre os sócios destruíram este universo unificado, a Image se fragmentou em várias editoras menores. Savage Dragon é, hoje, um dos poucos títulos da Image original que permanecem na empresa sob o selo Image. De modo que todas essas histórias ainda são válidas. Se esta fase é considerada menor, é por que a Image original, como um todo, não passou de uma grande bolha de consumo.

Fem Force da editora AC Comics: Um universo estrelado por reformulações de heroínas que caíram em domínio público. Neste cenário, são elas, e não eles, as principais estrelas. Uma mudança de paradigma ousada e relevante num universo/multiverso dominado(s) por homens. Uma excelente ideia, apesar de visualmente polêmica por ter os garotos como público-alvo principal. Ainda sim, eram elas nos holofotes e eles como coadjuvantes, isso não é tão pouco como pode parecer. Pena que não chegou no Brasil.

Funny_Picture_Stories_1Protectors da editora Malibu Comics: somente com os personagens da antiga  editora Centaur Publications. Foi uma reformulação simples que unificou aqueles heróis num grupo a serviço do governo, enredo (plot) bem banalizado na época, sobretudo pela Image. Alguns foram mudados para virarem marcas específicas da Malibu Comics (foram renomeados e redesenhados mantendo a história básica). Nada disso chegou aqui, mas, nesse caso, quem liga?

Terra Obscura do selo America´s Best Comics da editora DC: Spin off (desdobramento) da série Tom Strong de Alan Moore, para o selo Américas´s Best Comics da editora DC. Terra Obscura foi escrita por Moore, mas ficou restrita a um público mais específico de quadrinhos. Lembrando: Tom Strong é criação de Alan Moore e não está em domínio público. É um Alan Moore, ame-o ou odeie-o, mas vale a leitura.

Project Superpowers da editora Dynamite Entertainmant: Alex Ross criou um universo para editora Dynamite a partir dos personagens de domínio público.

Este foi o título que teve mais visibilidade internacional, apesar de não ter agradado tanto a crítica e o público. Foi o único dos grandes trabalhos de Ross que não foi premiado: os outros são Marvels, Astro City e Reino do Amanhã. Veremos um pouco mais sobre essa história a seguir. É importante guardar uma informação aqui, Alex Ross é um dos poucos artistas de quadrinhos da atualidade a trabalhar com super-heróis que consegue uma obra requintada e, ao mesmo tempo, comercial para todos os públicos.

Atenção: os personagens são de domínio público, mas todo esse material mencionado é de propriedade das respectivas editoras. Não entendeu? Explico.

Sherlock Holmes foi escrito por Arthur Conan Doyle em romances e contos na virada dos séculos XIX para o XX.

Sherlock Holmes e as histórias escritas por Doyle caíram em domínio público; qualquer um pode publicar essas histórias ou usar os personagens em novas histórias.

Jô Soares escreveu e publicou o Xangô de Baker Street em 1995, a vinda de Holmes ao Brasil.

Para publicar o Xangô de Baker Street é preciso pagar direitos autorais para Jô Soares, pois ele escreveu essa história específica que não caiu em domínio público.

Este ensaio foi escrito entre 2015 e 2016 e o mencionado livro do Jô Soares ainda é publicado pela Companhia das Letras.

moongirlRetomando o assunto, agora veremos as duplicatas perdidas em universos TMs. Algumas editoras com universos estabelecidos também recorreram ao domínio público para dele retirar personagens mais específicos (ou mesmo ideias). E estamos falando aqui dos universos (até então) regulares da DC e da Marvel. Observe algumas duplicatas perdidas de heróis em domínio público em universos proprietários:

O Green Lama da Marvel Comics: publicado no Brasil pela Panini em 2006 em Maiores Clássicos dos Vingadores #01, o Lama Verde (Green Lama) aparece na história.

John Aman da Marvel Comics: baseado no Amazing-man, este Aman é mentor do Punho de Ferro.

Há três Amazing-Men negros nos universos (até então) regulares da DC. O primeiro está lá desde antes da primeira Crise: seus criadores admitem retcons baseados no herói de domínio público. E tem gente que pensa que mudar etnias de personagens foi ideia da Marvel.


O Magno da DC Comics: o herói magnético criado em 1940 por Paul Chadwick gerou várias versões (com outros nomes até) nos universos (até então regulares) da DC.

Coruja da Marvel Comics: na Marvel, há o Esquadrão Supremo numa Terra paralela, equivalente à da DC, no multiverso Marvel. Esta Terra foi criada quando o primeiro acordo que faria a união da Liga da Justiça com os Vingadores não deu certo. Os envolvidos no projeto não quiseram desperdiçar o material produzido para estudos e adaptaram a história. A Saga da Coroa da Serpente chegou a sair no Brasil ainda pela editora Abril.

amazonaMWAqui, não está sendo levado em consideração os personagens diferentes com nomes iguais, como são os casos do Wonder Man, Quick Silver, Daredevil (voltaremos a ele) e da Black Cat. Nem aqueles que compartilham apenas poderes em comum, como no cado de Magno e Magneto. Stan Lee e seus seguidores são muito criativos, não é mesmo? A Marvel pode até ser a casa das ideias, mas está longe de ser maternidade. Enfim, adiante.

Mas apesar de todos os resgates anteriores desses personagens, nenhum fez tanto barulho quanto o Projeto Superpowers.

Foi preciso o nome de peso de Alex Ross, já consagrado com Marvels, Reino do Amanhã e Astro City, encabeçar o Projeto Superpowers para a editora Dynamite Entertainment para dar a esses personagens esquecidos a visibilidade internacional que nunca tiveram antes.

Mesmo o mais popular desses personagens esquecidos, o Daredevil da era de ouro, só rodou o mundo de verdade pela arte de Ross. Vamos a ele, um pouco, antes de falarmos da obra de Ross e de sua importância.

 

O Original Esquecido: O Caso Daredevil

daredevilO caso do Daredevil original da era de ouro dos quadrinhos é emblemático. Ele foi criado por Jack Binder, Charles Biro e Jack Cole em 1940 e caiu em domínio público.

Nos anos 1960, Stan Lee criou um personagem diferente, mas usou o nome Daredevil (o Demolidor, aqui no Brasil), que acabou se tornando uma das marcas registradas da Marvel.

Ao criar seu Daredevil, Stan Lee não partiu do zero. Havia um personagem que não era mais publicado, mas ainda era lembrado. Tinha um nome e uma roupa de demônio. Era mudo por trauma e usava um par de boomerangs. Foi trocar a mudez pela cegueira, os boomerangs pelo bastão com gancho, dar a ele um radar que lembrava a visão sobre humana do Black-Bat – um concorrente direto do Batman na era de ouro que não vingou – e estava pronto o novo Daredevil de Stan Lee, Bill Everet e Wally Wood (criador do uniforme vermelho e do emblema de duplo D).

Os dois personagens são inconfundíveis, apesar de parecidos, mas algumas pessoas, físicas ou jurídicas, acabam renomeando o personagem original para evitar atritos legais com a Marvel. A tabela a seguir é só um exemplo de como isso aconteceu.

Os Muitos Nomes do Daredevil Original

 

Editora Nome Comentários
Lev Gleason Publications Daredevil Editora que publicou o personagem originalmente em 1940.
Image The Dynamic Daredevil ou Daredevil dependendo da edição Na revista do Savage Dragon por Erik Larsen, ele resolveu manter o nome original só acrescentando um Dynamic antes.
Dynamite Entertainment (USA) Death Defiant Devil Projeto Superpowers de Alex Ross.
Dynamite/Devir (Brasil) Demônio Desafiador Tradução brasileira do Projeto Superpowers de Alex Ross.
First Publications Double Dare Sem comentários.
AC Comics Reddevil Sem comentários.
Wild Cat Books Daredevil Nesse caso, trata-se de um livro, uma obra em prosa sem ilustrações internas. Autor e editor mantiveram o nome.

Direitos Autorais e de Cópia nos EUA


O caso do Daredevil ilustra bem uma situação da lei norte-americana sobre direitos autorais. Isso é um cuidado importante que o leitor deve ter: o fato que os direitos autorais nos EUA não são unificados, de forma que há histórias de certos personagens que caíram em domínio público, outras não, algumas editoras detém exclusividade sobre a marca, outras sobre o nome etc. Nos EUA, tudo isso é separado.

OwlCaso haja algum escritor entre os leitores, um aviso: em caso de dúvida, como o Capitão Marvel Jr. e o Shield, por exemplo, não usem os personagens em materiais que pretendam publicar.

Não será este ensaio que explicará todos esses labirintos e nós. Caso haja algum jurista ou estudante de direito que se interesse por domínio público, fique à vontade para pesquisar. A matéria de Mark Almeida, já citada é um excelente ponto de partida.

Para o momento, só interessa que o direito autoral nos EUA não é unificado. Isso permitiu a Stan Lee e a Marvel o uso do nome e de algumas outras características de personagens já existentes na criação de outros. O Daredevil não foi o único.

 

Incontestavelmente Domínio Público


Mas o que é incontestavelmente de Domínio Público e onde achá-lo?

As histórias e biografias desses personagens que podem ser usadas por qualquer um e são usadas constantemente por vários autores e editoras, como já visto, estão nos sites:

            Comic Book Plus (+);

            The Digital Comics Museum;

            Wikia – Public Domain Super Heroes;

 Criadores


Mas não é por que os personagens são de domínio público que as pessoas podem ignorar as informações disponíveis sobre seus criadores, nomes originais e quando foram criados. Segue uma pequena lista com alguns personagens.

 

Personagens e Criadores


Captain Flag de 1941, criado por Joe Blair e Lin Streeter.

The Owl de 1940, criado por Frank Thomas.

Miss Masque de 1941, criada por autor desconhecido, não há créditos para o texto e a arte interna, mas as primeiras e mais importantes capas são de Alex Schomburg e Frank Frazetta (Vampirella).

Captain Future de 1940, criado por Kin Platt.

Atomic Man de 1941, criado por Charles Voight.

Amazing Man de 1939, criado por Bill Everett.

The Clock de 1936, criado por George Brenner.

The Arrow de 1938, criado por Paul Gustavson. Sim, é anterior ao Arqueiro Verde da distinta concorrente.

Green Lama de 1940, criado por Ken Foster Crossen.

Airman de 1940, criado por George Kapitan e Harry Sahle.

Sub-Zero de 1940, criado por Larry Antonetti.

Pyroman de 1942, criado por Jack Binder.

Pat Patriot de 1941, criada por Charles Biro, Bob Wood e Reed Crandall.

Captain Freedom de 1941, criado por Arthur Cazeneuve & “Franklin Flagg”.

American Eagle de 1942, criado por Richard E. Hughes e Kin Platt.

V-Man de 1942, criado por autor desconhecido.

Marvelo de 1940, criado por Fred Guardineer.

Raven de 1940, criado por autor desconhecido.

Black Venus de 1944, criada por autor desconhecido.

The Hood de 1941, criado por autor desconhecido.

Black Cat de 1941, criada por Al Gabriele.

Moon Girl de 1947, criada por Max Gaimes, Gardner Fox e Sheldon Moldoff.

Star de 1949, criada por Sheldon Moldoff.

Starlight de 1950 (data de publicação), criada por Ann Adams e Ralph Mayo.

Lady Satan de 1941, criada por George Tuska.

Lash Lightning de 1940, segundo o Wikia – Public Domain Super Heroes, foi criado por Jim Mooney e Bob Turner. Segundo o Comic Vine, o autor é desconhecido.

Lightning Girl de 1942, criada por autor desconhecido.

Woman in Red de 1940, criada por Richard E. Hughes e George Mandel.

Yankee Girl de 1945, criada por autor desconhecido.

Yankee Girl de 1947, criada por Ralph Mayo.

Amazona the Mighty Woman de 1940, criada por Wilson Locke, Alex Blum e Dan Zolnerowich. Sim, ela é anterior a Mulher-Maravilha da distinta concorrente.

O, já tão mencionado, Daredevil de 1940, o original, criado por Jack Binder, Charles Biro e Jack Cole.

Entre muitos outros!

Como não era habito dos editores na época creditarem os artistas e escritores nas revistas em quadrinhos (comic books), muitos autores e desenhistas criadores permanecem desconhecidos ou não identificados até hoje.

 

A Importância de Projeto Superpowers


Voltando a falar sobre essa obra polêmica de Alex Ross e recapitulando: foi essa obra que deu visibilidade internacional a esses personagens esquecidos. E é aí que está a maior importância desse título. Mas antes de falarmos nisso, vamos ao outro tópico;

black-cat-comicsNão foi um sucesso retumbante. Alex Ross vinha de projetos em que ele e suas respectivas equipes acumulavam prêmios. Quando fez o projeto Superpowers já era o capista mais requisitado (e caro) dos EUA. Marvels e Reino do Amanhã já tinham dado a ele renome internacional. Cocriador de Astro City, série que acumulou elogios e prêmios numa época em que os super-heróis estavam banalizados e em baixa, os terríveis anos 1990.

O título Projeto Superpowers sai em 2008, depois de Alex Ross já ser o artista mundialmente consagrado. Mas, pela primeira vez, o texto foi predominantemente do Ross. Como sempre, ele fez a concepção visual e as capas, mas os artistas do miolo não seguiram tão a risca as concepções de Ross. Esse é o primeiro ponto negativo da série.

A colorização digital ficou muito escura e fake. Exemplo, há uma onda de mar que parece uma escultura estática por tantos detalhes. Segundo ponto negativo.

Em seus projetos anteriores, Ross criticava a banalização do enredo (plot) de Watchmen, em que os próprios super-heróis piorariam o mundo que tentavam consertar. Em Projeto Superpowers, o Combatente Ianque comete um erro crasso e só começa a concertá-lo em 2008, quando uma sociedade secreta de super-vilões com o apoio de um antigo herói renegado tomou o poder. Vemos uma certa reprise de Reino do Amanhã, aonde os heróis antigos retornam aos poucos para concertar os estragos e influenciar as novas gerações.

Bom, em 2008, o público já estava saturado disso. Mas o principal alvo de crítica dessa série de minisséries e seus desdobramentos é que elas são da editora Dynamite. Numa metáfora com o cinema, Ross foi um diretor/roteirista contratado para realizar o filme que o estúdio queria. Tanto é assim que, os direitos do Projeto Superpowers são da Dynamite Entertainment.

O final da primeira série mostra os antigos heróis se reunindo contra a ditadura do Homem Dinâmico, sendo, ele próprio, apenas um testa de ferro. Ou seja, agora a Dynamite tem um universo para chamar de seu para competir com a DC e a Marvel, além de um genérico de Watchmen, com o nome de Alex Ross encabeçando a equipe criativa.
        

Apesar de tudo isso a história não é ruim. Qualquer outra pessoa que a realizasse não seria tão cobrada como o Ross, mas todos esperamos mais dele. A história é boa, mas não é brilhante. A leitura vale muito a pena e que cada leitor tire suas próprias conclusões.

Mais o maior legado de Projeto Superpowers foi mostrar, como nunca anteriormente, super-heróis que qualquer pessoa pode usar em seus próprios trabalhos sem medo de processos.

Isso vai muito além dos quadrinhos e da criação de outras histórias. Pode se escrever livros, filmes, PRGs, produzir bonecos articulados (action figures), jogos de cartas, jogos de tabuleiros, videogames, e diversos produtos, sem ter que pagar nada a ninguém. Até mesmo a republicação e tradução das histórias originais é livre; a Dark Horse, concorrente da Dynamite, têm, em seu catálogo atual, os aquivos com as revistas originais do primeiro Daredevil, com o nome original estampado na capa inclusive, e não só dele, como de quase todos os personagens que aparecem no título da Dynamite.

A Dynamite é detentora dos direitos das histórias específicas da série Projeto Superpowers e seus derivados na própria empresa, mas ela não é dona dos personagens e qualquer um pode usá-los como bem quiser. A Marvel tem o Daredevil mais famoso (o Demolidor, aqui no Brasil), mas o Daredevil original pode ser publicado ou republicado por qualquer um.

Sem contar que Ross, apesar de não ter feito aquela história para os padrões que ele mesmo estabeleceu com outras equipes, demonstrou o quanto se pode ousar quando os personagens usados não são os figurões imutáveis com legiões de fãs irritantes que não permitem mudanças definitivas por colocarem as TMs acima das boas histórias.

O leitor pode até não gostar de Projeto Superpowers e não concordar com o que ele fez com aqueles personagens, mas é bem escrito e divertido de ler. Ele demonstrou mais uma vez que: não existem personagens de segunda linha, existem criativos de segunda linha. Ou, dito de outra forma, não existem personagens buchas, existem escritores e artistas buchas.

Vale lembrar que o Demolidor (Daredevil da Marvel) só conheceu o sucesso nas mãos de Frank Miller (Sin City, 300, Ronin etc.).

Atualmente o projeto Superpowers se encontra nas mãos de uma nova equipe criativa. Alex Ross continua em outros projetos da editora, sobretudo como capista.

DMC

Outras Fontes Além dos sites já mencionados

 

Livros

            ROSS, Alex (história, artes de capas, concepção visual e direção de arte)/ KRUEGER, Jim (história e texto)/ PAUL, Carlos (arte)/ KLAUBA, Doug (arte)/ SADOWSKY, Stephen (arte).  Projeto Super Powers.  São Paulo: Devir, 2011.

 


Rodrigo Rosas Campos.

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3 comentários em “[ENSAIO]Multiverso Domínio Público:Ensaio Sobre os Super-Heróis Que Caíram Em Domínio Público

    Fábio disse:
    18 de março de 2017 às 22:37

    O Conan de Robert E. Howard está em domínio público? Howard morreu nos anos 30.

    Curtir

      rodrigorosascampos respondido:
      19 de março de 2017 às 20:07

      Pode pesquisar. As leis nos EUA de direitos autorais são confusas mesmo.

      Curtir

      rodrigorosascampos respondido:
      21 de março de 2017 às 16:53

      Quase esqueci de avisar, apesar das histórias do Conan (e ele inclusive) estarem no domínio público, a marca e o nome pertencem a um grupo, outro possui a da Red Sonja. Enfim, como explico na matéria há uma zona nebulosa no domínio público em função dos nós legais das leis norte-americanas que não unificam as propriedades intelectuais. Abraço!

      Curtir

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